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Miguel Patrício -

O PORQUINHO FUJÃO

A minha origem campestre quase sempre me presenteia com algumas interessantes e, para mim, valiosas recordações. Neste momento, compartilho com vocês uma delas; caso acontecido na estância vizinha de onde me criei. Vamos lá.

Fujão era o seu nome. Não havia outro mais adequado. O chiqueiro era forte e periodicamente reforçado com grossas tábuas, mas não o suficiente para ele. De repente, olha lá o porquinho fuçando as plantas nos fundos do quintal e sujando-se todo no barro da bica. Fugir era a sua especialidade, e não havia argumento que o convencesse a voltar numa boa. Ia sempre arrastado. Olha que dona Francisca cuidava muito bem dele e de sua moradia. Cedo, aos primeiros raios do sol, ela lavava o cercado, o cocho da comida e esfregava demoradamente o piso. Logo após eram jogadas as espigas de milho. A água estava sempre limpa, cuidadosamente renovada. Mas o porquinho fujão não se mostrava agradecido. Vivia gritando, reclamando, fugindo.

Também, ninguém entendia sua linguagem - ninguém sabe falar a língua de porco; sabe comê-la - grunhidos se perdiam pelo dia afora levando, em vão, repetidas lamentações. Aquele espaço limpo e cheiroso, aquele cimento branco rangendo-se sob os seus pés, aquelas vasilhas enfileiradas e a água cristalina brilhando ao sol eram o motivo do seu desgosto. Sua vontade era coçar-se nas árvores, cavar ao lado das raízes, encher as unhas de terra. Bom mesmo era jogar-se por inteiro na água que corria, afundar o focinho na lama e sentir o gosto do chão. Ali não havia calor; havia sim muita diversão. Que lindo ver o barro subir e cair todo sobre as costas. Se houvesse mesmo paraíso, aquele seria um pedaço; um pedaço sujo de paraíso.

Uma, duas, três, muitas vezes. Incontáveis fugas ele fez. Inúmeros reparos ganhou o chiqueiro. Vários meses viveu assim alterando banhos de água fria e banhos de lama quente. Até que um dia o cimento rachou-se e ele conseguiu remover uma parte, atingindo o chão. A vasilha de água foi tombada e uma lama fresquinha apareceu como por encanto. Era noite e, assim, aproveitou todo o tempo que tinha para brincar. Sabia que sua dona ia chegar ao amanhecer e consertar o estrago que fizera. Não aconteceu. Dona Francisca notou o brilho de felicidade dos seus olhos, a alegria misturada ao barro da poça d’água e entendeu a sua grande aflição. Daí em diante reservou um cantinho bem sujo, todo e somente para ele. O porquinho não fugiu mais.

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