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Saúde -

Suicídio entre jovens cresce 38% nas Américas em duas décadas, aponta estudo

Especialistas chamam atenção para sinais de alerta e fatores associados ao comportamento suicida entre adolescentes e jovens. (Imagem: Magnific)

Minas Gerais - Setembro de 2026. O Setembro Amarelo, movimento dedicado à conscientização e à prevenção do suicídio, ganha neste ano um alerta especialmente importante para a população jovem. Um estudo publicado na revista The Lancet Regional Health Américas, com base nas Estimativas Globais de Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS), identificou um crescimento significativo da mortalidade por suicídio entre adolescentes e jovens de 10 a 24 anos nas Américas ao longo de duas décadas. 

Em 2021, foram estimadas 18.157 mortes por suicídio nessa faixa etária nos 35 países analisados. A taxa passou de 5,70 mortes por 100 mil habitantes, em 2000, para 7,84 em 2021, aumento acumulado de aproximadamente 38% no período. O especialista em neurociência e professor da Afya Educação Médica Belo Horizonte e Montes Claros, Dr Albert Nilo Costa, comenta que os sinais de alerta de que um jovem pode estar em risco incluem a presença de algum transtorno mental, que pode se manifestar por meio de irritabilidade, alterações de comportamento na escola e em casa e mudanças na forma como ele se relaciona com os pares. 

“Esses sinais exigem um olhar mais atento para esse jovem. Além de um adoecimento mental, geralmente prévio, existem fatores de risco como o bullying tradicional e o cyberbullying, que ocorre por meio das telas e das redes sociais. As alterações no sono também podem desencadear uma série de consequências, como utilizar smartphone ao deitar pode levar ao sono ruim, uma pior regulação emocional e consequentemente maior vulnerabilidade psicológica. Somam-se a esses fatores a violência e a negligência. Segundo a OMS, experiências adversas em casa, violência e pobreza são fatores importantes para o comprometimento da saúde mental de crianças e adolescentes”. 

Ainda de acordo com o estudo publicado pela The Lancet, três em cada quatro mortes por suicídio entre pessoas de 10 a 24 anos em 2021 ocorreram entre homens. A taxa masculina foi quase três vezes superior à feminina. Ao mesmo tempo, porém, o ritmo de crescimento foi maior entre as mulheres, sinalizando que a prevenção precisa considerar diferentes fatores de vulnerabilidade de acordo com idade e gênero.  

Dr Albert Nilo destaca que 96,8% dos casos têm relação com algum transtorno mental.“Os homens realmente cometem mais suicídios, enquanto as mulheres fazem mais tentativas. Entre as situações apontadas como mais importantes no comportamento suicida estão o aumento da prevalência de depressão, o uso abusivo de drogas, mudanças psicobiológicas, como a diminuição da idade de início da puberdade, o estresse e o comportamento ou modelo suicida. Já entre os eventos precipitadores mais comuns do comportamento suicida estão também os graves conflitos relacionais e as perdas interpessoais significativas”, complementa.

A pesquisa aponta ainda que o suicídio foi responsável por 9,7% de todas as mortes registradas entre pessoas de 10 a 24 anos nas Américas em 2021, permanecendo como a terceira principal causa de morte nessa população, atrás apenas da violência interpessoal e dos acidentes de trânsito.

 

Realidade brasileira 

No Brasil, registros do Ministério da Saúde de 2021, contabiliza 15.507 casos anuais, o equivalente a uma média estarrecedora de 42 mortes diárias, sendo que, para cada ato consumado, calcula-se que cerca de 25 pessoas tentem tirar a própria vida e muitas outras convivam em silêncio com ideações suicidas. 

A coordenadora de Psicologia da Afya Sete Lagoas, Dra Sabrina Magalhães Teixeira, explica que muitos jovens não procuram ajuda por medo de serem considerados fracos, loucos ou dramáticos. “O sentimento de considerar um fardo para os outros e acreditar que, ao não falar, estão poupando as pessoas ao redor é outro fator. Existe ainda o medo da reação dos pais, de serem punidos, perderem autonomia ou passarem a ser vigiados”.

A psicóloga ainda destaca que existe uma dificuldade cultural de lidar com as emoções e com temas relacionados à saúde mental, e muitas vezes, o jovem tem dificuldade até de nomear, expressar e comunicar o que está sentindo. Experiências anteriores também podem pesar. Se já tentou conversar e não foi levado a sério, foi ridicularizado ou punido, pode ter ainda mais dificuldade para pedir ajuda. 

“Por isso, a presença de um adulto que ofereça segurança e apoio sem julgamentos é tão importante. Para os pais, pode ser difícil não reagir emocionalmente ao perceber um sofrimento tão intenso. Mas é importante procurar se tranquilizar e não se culpabilizar naquele momento, porque uma reação muito intensa pode fechar a comunicação e fazer o jovem evitar novas conversas. É fundamental não minimizar o sofrimento. Comportamentos autolesivos, por exemplo, não devem ser tratados como “apenas uma forma de chamar atenção”. Existe um sofrimento que precisa ser compreendido e abordado. Em vez de julgar ou culpabilizar o jovem pela falta de recursos para lidar com a dor, precisamos acionar recursos internos, familiares, sociais e profissionais para ajudá-lo”, conclui a coordenadora.

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