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Miguel Patrício -

COM A MORTE NO BOLSO

Ele era meu amigo. Um grande amigo. Estávamos quase sempre juntos em quase todas as coisas, às vezes boas como uma pescaria, um jogo de futebol, um aniversário, um almoço; às vezes ruins como um desentendimento na família, uma falta de dinheiro, uma doença, um velório. Juntos, sempre se preocupando um com o outro, coisa de verdadeiros amigos.

Sem dúvida, era uma ótima pessoa, boa de se estar por perto, mas como todos nós temos defeitos ele tinha os seus. O principal, para mim, era a teimosia. Defendia as suas preferências, as suas opiniões, e não havia santo que o fizesse mudar de ideia. Em muitos casos, a verdade estava estampada ali em sua frente, mas ele não via, ou fingia não ver. Teimosia pura!

Uma de suas birras dizia respeito ao cigarro, ao constante uso dele, acho que o único vício que tinha. Eu contestava, mostrava os malefícios daquela fumaça, abria os livros, enumerava os nocivos componentes do produto, mas sempre em vão. Ele dizia saber de tudo aquilo, mas se mostrava desarmado, de vontade pequena para lutar contra essa dependência, esse costume. E no bolso de sua camisa, conservava a habitual carteira de cigarros.

Apresentava uma justificativa, sempre a mesma, de certa forma até plausível para explicar e sustentar o vício: quando rapaz, muito tímido, o cigarro entre os dedos lhe dava forças e o fazia levantar a cabeça e olhar nos olhos das pessoas quando se encontrava em alguma reunião ou até mesmo correspondia ao sorriso de certa donzela em uma das inúmeras festas da época. O cigarro entre os dedos e a carteira com tantos outros de reserva no bolso da camisa.

Esbanjando argumentos, acrescentava que um cheiroso café deveria ser acompanhado de um saboroso cigarro. O fumo acalmava os nervos e colocava as ideias no lugar. Se fazia mal, ninguém via direito e, para ele, era melhor morrer fazendo o que gostava, que passar uma vida de privações. E no bolso de sua camisa, seja no trabalho, nos passeios, nas festas, lá estava triunfante a teimosa carteira de cigarros.

E ele se foi. Primeiro que eu. Hoje constantemente vem em minha lembrança a sua imagem segurando a carteira quando corria alguns metros ou se abaixava pegando algo no chão. Ele carregava pra lá e pra cá o seu trágico destino, vivia com a morte no bolso!

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