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Espaço Cultural -

A Criança

Olha lá a criança! Desceu dos braços - gemeu e se debateu para ganhar a descida - e agora vai trocando passos: os primeiros da vida. Nem um ano tem. Se não me engano, mês que vem. Vai cambaleante, tentando se manter a prumo, sem ainda ter um rumo, sem pensar em uma direção. Quer apenas ir em frente, de repente descobriu que pode caminhar e o seu espaço tão pequeno, do berço ao braço, agora se alargou e pede para ser explorado. Vai pisando o vazio, feito bêbado na calçada, sem a medida exata dos pés até ao chão. Mas vai sorrindo, pois leva consigo dois tesouros: na mão direita, o biscoito, nem sempre lembrado, mas apertado, suspenso no ar; na esquerda, a avó, menos esquecida, pois é seu apoio, sua proteção sempre que embaraça nesta tarefa de se parecer gente grande. Inigualável alegria, incalculável felicidade. Vai pisando fundo, descobrindo o mundo, do quarto à sala, da cozinha à área que se alonga até ao muro. Como é imenso, penso que pensa. Vai percorrê-lo por completo, todos os cantos e recantos, hoje ainda, antes que o tempo finda e ela seja abraçada, erguida, beijada e enganada com acalantos.

Olha lá a criança! Balança, dobra os joelhos. Alguém ri dos seus tropeços, mas ela não se abate, não se acanha, vai em frente, como se já aprendesse a velha lição de tentar sempre outra vez. Vai pisando fundo, descobrindo o mundo, sem saber que ele é muito maior do que a vista alcança, sem imaginar que além do muro tem outras áreas, outras estradas, outras estrelas, outras dimensões. Não sabe ainda que o infinito é seu e que muitos outros tropeços terá que enfrentar e quase sempre sem alguém por perto. Isso é certo. Não imagina que essa alegria, se não for cuidada, pode se perder, aos poucos, nos solavancos da caminhada. Torço pela sua sorte, rezo pelo seu destino. E se ela, em seu trôpego vaivém, tivesse tempo para mim, eu diria baixinho em seus ouvidos os cuidados que deve ter nos deveres, nos prazeres e na ambição. Acrescentaria um alerta para com o coração. Tenho certeza de que assim evitaria algumas dores, driblaria dissabores e teria consigo os sonhos, acesos, por mais tempo. Mas ela não me ouve e, como sempre acontece, terá que descobrir tudo sozinha.

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