Goiás Interior - A notícia como ela é !
×
Espaço do Leitor -

HEREDITARIEDADE

Herdei de minha mãe. Cresci igual a ela nesta maneira de ser. De ser pacífico, de fugir das desavenças, de evitar discussões. Não me refiro à simples troca de ideia, da defesa de um ponto de vista, isso é saudável. Desaprovo a falta de educação, a ausência de respeito, o jeito ríspido de dizer o que se pensa. Desaprovo o dedo em riste, como um revólver, prestes a disparar discórdia e, quem sabe, a violência.

Minha mãe era assim: falava baixo, semeando a calma em sua volta. Todos eram contagiados por aquele clima de bonança, de ventura, de paz. Se os filhos se desentendiam, se as vozes eram elevadas, ela se desesperava. Colocava as mãos na cabeça e caminhava alguns passos para longe do atrito, como se não quisesse escutar, como se não pudesse presenciar aquele momento de conflito. Eu me lembro; a rixa terminava instantaneamente e os filhos se dirigiam a ela, desculpando-se pela falta.

Eu cresci levando comigo esse sentimento de aversão aos palavrões, à falta de capacidade para buscar o entendimento. Aprendi, desde a infância, que o diálogo é o melhor caminho, talvez o único para resolver todas as questões, para acertar os mais diferentes pontos de vista. O diálogo me trouxe até aqui, sem brigar com as outras crianças por uma bolinha de gude ou para ser o primeiro nas brincadeiras juvenis. A boa conversa me trouxe até aqui, sem precisar me impor pela força num jogo qualquer ou na disputa por uma garota na adolescência. Esse dom de usar a palavra, no nível aceitável para o acordo, me trouxe até aqui na idade adulta, conservando a boa moral e os bons amigos.

Agora, com certa experiência, sou um pouco exigente. Sou mais seletivo com a escolha das pessoas que caminham ao meu lado. Valorizo sempre a boa educação, o sorriso no rosto e o tom brando da voz. Se alguém exagera um pouco na bebida, eu já me afasto, pois sei que coisa boa não virá. Se uma pretendente se revela um pouco ríspida, já perde pontos comigo e o convite para tomar um café é oferecido a outra. Se um amigo não sabe escolher as boas palavras, não sabe defender seu ponto de vista de forma comedida, vou em busca de novas pessoas para encontrar um novo amigo.
Obrigado, mãe, por esse dom que me deixou. Com certeza, você descansa em paz!

Edições Anteriores
Acesse as edições anteriores do Goiás Interior