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Miguel Patrício -

O JOGO DOS NOVE FORA

Você já participou do jogo dos nove fora? É muito interessante. Trata-se de uma maneira de fazer o tempo passar quando uma viagem é mais longa. Os componentes do veículo, um por vez, esperam um automóvel que se aproxima em direção contrária e fazem a soma dos algarismos da placa, subtraindo-se sempre nove das parciais. O resultado final indica o que irá acontecer nas próximas horas ou naquele dia, demonstra o que espera a pessoa ao final do passeio.

Uma brincadeira legal. Se a soma, depois de retirados os nove, der o número um significa amor, ou seja, um novo romance se aproxima ou, presumo, os casos antigos se fortalecem. Se o resultado for dois, haverá muitos beijos à sua espera. Três significa conversa, boa comunicação. Quatro é desgosto. Cinco, um encontro acontecerá, quem sabe com alguém especial. Seis é o resultado melhor, é felicidade. Sete sugere azar. Oito indica ser hoje o que você espera há tempo. Nove, nada acontece, pois ao tirar o nove o resultado é zero. Ah, e se os dois últimos algarismos forem zero, pode fazer um pedido que ele fatalmente se realizará.

Comigo foi assim neste último final de semana. Chegou a minha vez, eu me concentrei, me coloquei à disposição da sorte, me aproximei ao máximo do transcendente e escolhi o veículo que se aproximava. Os algarismos surgiram, fiz a soma e retirei os nove. Pronto! Logo na primeira vez surgiu o resultado quatro: desgosto. Era desgosto o que me aguardava. Nada de bom estava reservado para mim naquele passeio. Outras vezes eu tentei, mas a previsão se confirmou. O número quatro teimava em se repetir e predominou. Depois de algum tempo me conformei e seguimos a viagem.

Meu rosto alegre da partida já não era o mesmo. O assunto tornou-se escasso e comecei a fechar minha concha. Senti até uma pontinha de inveja dos colegas que ganharam da sorte o número um do amor ou o seis da felicidade. Se pelo menos o dois do beijo tivesse sobrado para mim, mas isso não aconteceu. Tive que me conformar com o teimoso quatro do desgosto. Além de tudo, tinha que suportar os sorrisos dos colegas afortunados a respeito do meu destino. E segui, sentindo já a partir dali o meu inevitável desgosto.

Chegamos ao destino, as horas passaram, as atividades planejadas se sucederam, as novidades surgiram e o desgosto do número quatro permaneceu ao meu lado. Ele tinha o direito, pois foi o escolhido da sorte para mim e não se descuidou um só instante. Assim não pude aproveitar nem por um pequeno momento as delícias dos números bons. Nem mesmo a boa conversa advinda do três ou a emoção do encontro inerente ao cinco.  Ninguém me olhou com interesse, nada aconteceu de especial, não senti pulsar mais fortemente o coração. Quem eu queria que me olhasse não teve olhos para mim. Tudo bem, eu criei uma expectativa um pouco acima da realidade, e desgosto, foi só desgosto o que ganhei. Espero ter mais sorte da próxima vez.

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