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Miguel Patrício -

MINHA PROSA TRISTE

Em minhas prosas, gosto de falar de coisas boas. Nelas, quase não existem histórias tristes, porém esta que vou contar agora foge à regra. É a história de minha galinha barbuda.

Começa com uma saudade que aparece de repente e vai me levando, me levando até aos meus 12 anos mais ou menos, idade em que eu tinha reunida toda a família e um quintal cheio de criações que minha mãe cuidava. Entre elas havia uma galinha que eu adorava. Chamava-se Barbuda por ter várias penas em volta do pescoço logo abaixo do bico. Arisca como quase todas as aves, mas comigo extremamente mansa, tanto que nosso apego chamava a atenção das pessoas em volta. Era a minha melhor amiga.

Eu saía para ir à escola ou brincar com os colegas e, quando chegava, ela vinha correndo se encontrar comigo, como fazem os cachorros. E não era para ganhar comida, pois vivia com o papo cheio. Ganhava, sim, carinho e muita atenção. Eu a colocava nos braços e saía conversando com ela, falando baixinho e passando a mão em sua “barba”. Ela ronronava como se concordasse com o que eu dizia. Queria estar comigo o tempo todo, como se na verdade eu fosse o seu animal de estimação.

Colocada no chão, ela se aninhava e ciscava esperando que eu jogasse terra sobre suas asas; era seu jeito de tomar banho. Quando botava e chocava, somente eu podia aproximar do ninho sem ela se zangar. E eu fazia mais: colocava a mão sob seu corpo e sentia a quentura dos ovos. Quando nasciam os pintinhos, eu os colocava na palma da mão – quatro, cinco de uma vez – e Barbuda não se importava, sabia que eu era incapaz de fazer mal a eles. Aliás, eu os ajudava a encontrar bichinhos afastando folhas e movendo pedaços de madeira na beira da cerca.

Seus olhinhos vivos estavam sempre voltados para mim, até que um dia se fecharam e não quiseram mais abrir. Uma peste, comum naquele tempo, invadiu o terreiro matando quase todas as aves, entre elas minha galinha barbuda. Recebi a notícia de minha mãe e nunca pude medir a tristeza que senti. Coloquei-a nos braços pela última vez e fui jogar num terreno baldio. Seu pescoço caído e suas asas em desalinho me deram o último adeus.

Não há como evitar sua lembrança, não há como curar a ferida que até hoje faz sangrar meu coração. Às vezes penso que seria melhor não tê-la conhecido. Parece que nesta vida os momentos de alegria não compensam os momentos de tristeza. Essa é minha prosa triste...

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