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Miguel Patrício -

INFÂNCIA NA FAZENDA

Faço parte de um grupo seleto de pessoas que não precisam lutar para ser feliz, pois trazem consigo a felicidade lá do tempo de criança. Isso normalmente acontece àqueles que tiveram a oportunidade de viver a infância em uma fazenda. As recordações desse tempo simples, mas valioso, fortalecem e sustentam o sorriso diante das dificuldades, dos desenganos, das eventuais tristezas...

Lá, distante da modernidade e junto à natureza, o melhor da vida acontece. Lembro-me quando nós, meninos, saíamos correndo, querendo sempre chegar primeiro à plantação de arroz que meu pai cuidava. Enfiávamos a cabeça debaixo daqueles cachos ainda verdes começando a curvar os talos, cobrindo o espaço por onde passávamos. Havia um cheiro incomparável que hoje só encontro no frasco de minhas recordações. Nosso objetivo, no entanto, eram as enormes melancias que se debruçavam naquela terra vermelha, ano após ano, sempre à nossa espera. Extremamente doces, tanto que na época certa, dizíamos estar açucaradas!

São inúmeras as lembranças. Quando passava sobre a fazenda o barulho longínquo de um avião, era até bonito ver a meninada correr pelo terreiro, olhando para cima e gritando com todas as forças dos pulmões: “Avião, joga um neném pra mim!” À noite, sentávamos sob o céu acometido de sarampo, pintadinho de estrelas, para ouvir histórias de fantasmas, lobisomens e mulas-sem-cabeça. As mãos na vasilha de pipoca e os olhos arregalados, perdidos no escuro do mato além da cerca de arame. Era enorme a simplicidade que nos rodeava, mas aquelas fantasias constituíam, na verdade, nossos maiores tesouros.

Só uma coisa nos incomodava: chuva brava! Quando o céu escurecia de certo lado do mundo, e as copas das árvores maiores começavam a balançar, corríamos todos para a cozinha da casa, pois sabíamos que lá encontraríamos abrigo. A presença de nossos pais nos confortava e nos protegia das garras do vento que destelhava o paiol, e da foice vermelha dos relâmpagos que passava ameaçadora sobre nossas cabeças. Depois daqueles trágicos e longos minutos, a alegria voltava, e parecia redobrada. Corríamos pelos trieiros, pulando sobre as poças d’água, arrastando os galhos de árvores tombados ao chão. Aproveitávamos também para recolher os frutos maduros caídos na terra molhada. Pareciam mais saborosos após serem sacudidos pelo vento e jogados bem ao nosso alcance.

Não me esqueço que brincávamos sempre esperando a oportunidade de abaixar o calção dos colegas, preso à cintura apenas por um elástico. Bastava alguém descuidar e “vupt”, o calção ia parar lá nos pés do menino. Mas não tinha problema; na mesma velocidade que descia, a roupa subia e a alegria continuava. São inúmeras as lembranças; não cabem todas aqui.
Assim é a infância em uma fazenda. Poucos tiveram, como eu, o privilégio de conhecer e guardar para si toda essa felicidade.

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