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Espaço Cultural -

Preferência

Sabe, eu sempre me dei bem com as pessoas idosas. Durante toda a vida, nutri uma admiração por aqueles que conseguem atingir a terceira idade. Tarefa que não é fácil: travestida de vícios, doenças e acidentes, a morte persegue a vida, de forma implacável, alcançando-a, muitas vezes, antes do tempo. Eu sempre dei muito valor a quem carrega consigo uma bonita coleção de primaveras. As vistas curtas, os passos lentos, os movimentos incertos são privilégios que todos querem atingir. Eu sempre, mas ultimamente, para minha surpresa, tenho mudado pouco a pouco essa opinião.

Devo estar errado, mas não consigo me controlar. A afinidade com os velhinhos já não é a mesma desde que, devido ao meu trabalho, tive de enfrentar, de forma mais assídua, as filas dos bancos. Já ficou claro, não é? Lá estou eu, com os cheques, o dinheiro, as duplicatas, esperando, já com as pernas doendo, contando quantos ainda estão à minha frente, quando aparece sorrateiramente um deles, de movimentos lentos, passos curtos, vistas incertas e se coloca na ponta da fila, amparado por uma bengala e uma placa no alto que lhe dá preferência. Tento me controlar, passo as mãos no rosto, dou um suspiro, coloco o peso agora sobre a perna esquerda e espero. Quando a fila volta a caminhar, outra esperta criatura senil se coloca adiante, retardando, outra vez, a minha vez. A paciência já no fim reage, evitando o desespero. Olho o relógio, enquanto outra alquebrada aparição se põe vagarosamente à minha frente.

Nunca pensei que existissem tantos velhos assim em nosso país. Acho que as atuais informações sobre a incidência desses indivíduos de cabelos brancos estão incorretas. Há muito mais cortadores de fila do que se tem notícia. E já é de praxe: quando vou ser chamado, quase sou atropelado por mais um matusalém que me acotovela e estende primeiro seu papel. Que papelão! Será que não tem vergonha de se aproveitar da sua bela idade? Será que esqueceu a educação no asilo? Quando eu chegar nesse estágio, não vou cometer atos de tamanha safadeza. Não vou! Bem, pensando bem, eu vou! Quero descontar, tintim por tintim, todos os minutos que já me fizeram esperar. Mesmo que quem vá pagar o pato sejam outras pessoas. Ainda vou ter a preferência. Estou até torcendo para que envelheça depressa. Quero chegar, numa segunda-feira, quando o banco estiver bem abarrotado e, de vistas lentas, movimentos curtos, passos incertos, ultrapassar, sem dó, com classe e categoria, um a um da enorme fila e me apresentar sorridente ao caixa, para desespero de todos. Ainda vou ter a preferência!

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