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Espaço Cultural -

POETA MISTERIOSO

                   A época áurea do rádio em nossa cidade ocorreu na passagem dos anos 70 para 80, quando surgiu a Rádio Goiatuba. Não foi a primeira, mas a sua Amplitude Modulada cobriu grande parte da região e reuniu grandes comunicadores como Ribeiro Neto, Cairo Eres, Filemon Guimarães, Paulo Farias, Custódio Valdemar, Zé Canoa, Goiás Figueira. Alguns desses militavam também no esporte ao lado de Nilton Viturino e Túlio Isac. Depois surgiram outros e destaco o nome de Ronaldo Rodrigues para representar os demais.

                   Todos fizeram sucesso, mas Goiás Figueira conseguiu uma audiência incrível! Era enorme o número de cartas que chegava diariamente endereçado a ele. Seus programas eram alegres e só tocavam música de primeira qualidade. Brincalhão, mexia com todos principalmente as autoridades. Elaborava “pegas” ao vivo para os ouvintes repetindo “Joel” a quem não entendia alguma frase sua; deixou eternizados vários jargões como “beliscando a jurubeba”, “balangandã”, “olha o horal” e criou inúmeros personagens radiofônicos como Omar Custoso que apresentava o engraçado horóscopo do dia, e o Poeta Misterioso que sempre aparecia com uma trova inédita em seus programas. E quem não se lembra desse misterioso poeta? Seus versos ficaram gravados na memória do povo, apesar de nada apresentarem de construção poética. Não tinham mensagem, métrica, rima, nada, mas na voz de Goiás Figueira adquiriam a graça, o bom humor e a alegria que as pessoas procuravam:

“A lua vem saindo

                Com seus raios cor de anil

                Você sabia que não gostava de mim

                Por que roubou minha égua?”

                No som do rádio, a encenação não se resumia apenas na apresentação dos versos. A festa organizada pelo locutor começava bem antes, desde o fictício aparecimento do poeta na porta da emissora, bêbado, para entregar os referidos poemas. Era uma dificuldade para o sujeito subir as escadas e entrar no estúdio com o pedaço de papel nas mãos, quase sempre um guardanapo de mesa de bar. Muitas pessoas deixavam seus afazeres e corriam até ao local para conhecer o hilário personagem, mas lógico nunca o encontravam. Tinham que se contentar com as trovas que eram oferecidas aos ouvintes, do mais simples ao mais importante cidadão. Prefeito, juiz, promotor, delegado, padre, pastor, ninguém escapava daquela comédia e todos mantinham o rádio ligado esperando a hora chegar:

“Eu já estava atrasado

                Para encontrar o meu amor

                Mas ainda deu tempo

                De lamber os frisos da minha bicicleta”

                Todos os seus colegas “poetas” da emissora colaboravam com a confecção daqueles pequenos poemas, já que diariamente eram necessários três ou quatro deles inéditos. No entanto, quando faltava inspiração à turma, Goiás Figueira entrava em cena e os compunha na hora do programa, feito os repentistas nordestinos. Eram, na verdade, os mais engraçados:

“O amor é coisa linda

                 Tão linda quanto a paixão

                Andei quatro léguas e meia

                Quando a batata assar, eu quero”

                Apesar dos inúmeros “compositores”, Goiás Figueira era o verdadeiro poeta do rádio e jamais será esquecido. Completamos mais um ano sem a sua voz, mas vão ficar sempre em nossa lembrança seu sorriso, sua alegria, sua amizade. Nunca morrerá o nosso Poeta Misterioso!

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