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Espaço Cultural -

Lembrança

Lembrança é a maior riqueza que se leva pela vida afora. É álbum de fotos coloridas, escolhidas e guardadas com carinho para ser folheado nos momentos de prazer, emoção e saudade. Lembrança traz para o presente tudo o que se vive de forma intensa no passado. Aquilo que faz o coração bater mais forte tem reservado para si uma das páginas desse álbum de recordações. Ali são depositadas figuras da família, do tempo de criança, de um lugar que se viu, de um amor que se perdeu, de um beijo que se ganhou. Há quem se lembra saudoso de um final de novela, de uma música, de um filme...

Eu também me lembro. E dentre minhas recordações, frequentemente me vejo frente a um texto lido certa vez numa sala de aula quando criança. Era um conto que o bom gosto da professora levou para as crianças em uma de suas inúmeras aulas de Língua Portuguesa. A história falava de uma menina de sete a oito anos que passava frente a uma escola. Era hora do recreio e a meninada encheu, de repente, o pátio cercado por uma grade de ferro. O alarido chamou-lhe a atenção e ela parou. Seu olhar miúdo percorreu todos os espaços e fixou-se numa roda de crianças de sua idade: elas erguiam e tocavam com as pontas dos dedos uma bola, uma enorme bola colorida. O brinquedo pulava suavemente de mãos em mãos arrancando sorrisos e gritos de contentamento. A menina observava. Era imensa a alegria que todos sentiam, não podia ser medida aquela felicidade; felicidade essa que ela não conhecia, pois não tinha condições financeiras para estudar, nem de ter uma bola tão bonita assim.

De repente um descuido, e a bola escapou passando pela grade, quicando ao lado da pobre menina. Seus olhos se incendiaram e ela tocou com carinho o brinquedo. Estava tudo ali, ao seu alcance. Todo aquele encanto poderia ser seu e ela não pensou duas vezes. Agarrou a bola e com seus curtos passos virou apressadamente a esquina e sumiu. Chegando em casa, extasiada e ofegante, rolou a bola pela pequena área, pegou de novo, jogou para cima, bateu na parede e em poucos minutos percebeu que a alegria não havia acompanhado o brinquedo. A felicidade não estava naquelas cores, mas sim na companhia, naquela roda de colegas e amigos, na preciosa oportunidade de viver em grupo. E a menina sentou-se ao chão, abraçada à bola, chorando o desalento de ser sozinha.

Não sei o título nem o autor do texto. Gostaria de encontrá-lo outra vez. Essa é a minha lembrança.

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