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Espaço Cultural -

FIAT 147

Faz tempo eu não via um Fiat 147. Um daqueles assim bem conservados. Foi ali próximo à feira. Domingo de manhã. Estava estacionado rente à calçada, um pouco afastado do tumulto como se quisesse evitar algum incidente, quem sabe um arranhão em sua quase inexistente pintura já bem apagada pelo tempo. Tudo original: faróis, bancos, parachoques...

Como todos sabem, o Fiat 147 é um carro simples e que “saiu de linha” há bastante tempo. Antigo, mas não o suficiente para se juntar às relíquias e ser cobiçado pelos colecionadores. Nem beleza tem para isso. Nem valor. Um certo amigo meu compraria um deles só com o dinheiro gasto em sua “bike” de passeio. No entanto, apesar de tudo, o fiat que vi prendeu a minha atenção. Tinha, sim, uma beleza singular. Bem cuidado, limpinho, vidros reluzentes, tapetes de retalhos cobrindo os bancos e um rosário com a imagem de Nossa Senhora pendurado no espelho retrovisor.

No pouco tempo que ali fiquei, percebi o zelo, o carinho com que o pequeno automóvel era cercado. Para seu dono, ele era uma verdadeira relíquia, aquele que seus parcos recursos puderam comprar. Por isso era valorizado, mais que um belo exemplar do ano adquirido por algum magnata qualquer. Imaginei até o aspecto do seu proprietário: um senhor de idade, cabelos grisalhos, morador da periferia ou de uma chácara nos arredores da cidade que, em companhia de sua senhora, viera realizar compras na feira ou, quem sabe, trazer algum produto para comercializar.

Ao sair do local, voltei-me diversas vezes para observar o velho fiat de cor indefinida. Levei comigo a certeza de que sua parte mecânica funcionava muito bem, tantos eram os cuidados de seu dono. Levei comigo, principalmente, a lição de que devemos valorizar aquilo que temos. Amar, de todo coração, o que nos foi concedido. Se não podemos alçar voos altos, que nossos voos rasteiros sejam serenos e admirados por todos que passam. Aquele velho carro pode não preencher totalmente os anseios de seu proprietário, mas é o que este pôde conquistar, é o Fiat 147 que Deus lhe deu.

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