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Diários de uma Bicicleta III - Sobre Diferenças

Diários de uma Bicicleta III - Sobre Diferenças

 

Eu e as Formigas descendo as escadarias de sua Colônia e conversando. Quando a perguntei sobre os modelos que devemos seguir Ela me questionou:

- Que Caminho? Cada uma aqui define e dita seu Caminho. Porque definir um padrão que fosse diferente à natureza de cada uma? Cada qual tem a sua Lenda Pessoal! Amamos e só aumentamos o afeto umas pelas outras exatamente pelas diferenças que temos. Cultuamos estas diferenças, é o que nos mantém vivas. Cada uma dando o máximo de si naquilo que é boa, e fazendo isto com muito Amor. Não tem como dar errado. Com Afeto, qualquer diferença desaparece.

- Falávamos enquanto descíamos as escadarias “imensas” de sua colônia, e enquanto isto Eu podia confirmar tudo, vendo com meus próprios olhos. Cada uma fazia uma tarefa e nenhuma era menos importante que a outra. A sensitiva, o Mago, as Operárias, todas eram tratadas com o mesmo respeito. Então Eu disse:

- Na nossa Colônia (achei que assim poderiam me entender melhor) não respeitamos muito as diferenças. Lá os que não seguem alguns padrões ou profissões socialmente aceitas são tidos como diferentes e vistos com muito maus olhos. Não os aceitam muito bem. O “certo” é estudar uma vida inteira, fazer uma faculdade e trabalhar em uma boa Empresa. Se for diferente disto, é estranho, não terá sucesso e deve ser segregado.

- Mas Vocês são tão numerosos! Como podem viver padrões de comportamento tão iguais?

- A maioria trabalha para satisfazer os objetivos de alguém, imaginando estarem vivendo por seus objetivos, penso que são anestesiados, pela sedução da rotina. Não precisamos pensar muito, só fazer algo que nos mandam.

- Aqui valorizamos os dons, talentos, habilidades de cada uma acreditando que assim, cada uma tende a dar o melhor de si para construir uma colônia melhor. Imagine só: somos muito numerosas também. Cada uma fazendo aquilo que ama e sabe fazer melhor, só tem a contribuir com o todo. Que bom que somos tão diferentes! Isto só aumenta o nosso amor e afeto umas pelas outras. Nos completamos sempre. Estranha sua colônia...

- Nesta hora, muito tocado com o que aquela formiga falava comigo, acabei me distraindo, tropecei e caí na escadaria, rolei até a base da colônia batendo a cabeça no chão...

Enquanto via uma formiga aplicando uma espécie de antídoto em meu braço, percebi também alguém me sacudindo mais forte, molhando meu rosto e dando tapas em minha cabeça de um lado pro outro. Abri os olhos e vi um senhor me segurando pelos braços e me erguendo.

- Meu jovem, tudo bem com Você? Achei que tivesse acontecido algo pior!

- Fui me levantando e olhando em volta sem entender mais nada e segurando minha bicicleta respondi sem muita certeza: - Está tudo bem, caí e bati a cabeça, mas estou bem, posso voltar sozinho.

Meio inseguro me deixou ir. E fui. Tão inseguro, como confuso... O que teria sido aquilo? Parecia tão real! Mas não poderia... Falando com formigas, diminuindo de tamanho, entrando na colônia delas?!?! Claro que não... E meus movimentos? Como me paralisei e agora estou aqui normal?! Voltei pra casa e continuei minha vida. Era domingo, e logo começaria nova semana, tudo igual...

A semana passou, e por alguns instantes me intriguei com aqueles pensamentos, sempre conflitando entre afastá-los (afinal não fazia o menor sentido) e refletir sobre. E no próximo domingo lá fui Eu novamente seguir minhas trilhas... Desta vez resolvi levar um binóculo. Por mais maluco que pudesse parecer, poderia olhar com mais precisão as pequenas “coisas”. Precisava voltar naquele lugar.

Fui pedalando e por vezes, parava e olhava. Num dado momento vi uma formação de formigas que me causou certo espanto. Aproximei, tendo a impressão de estar vendo umas letras. Mais próximo consegui ler uma frase formada pelas formigas, como aqueles corpos que se juntam em estádios de futebol e configuram o brasão de determinado clube. Dizia:

- “Permita-se a diferença e siga sua Lenda”!

Inacreditável, pensei e apertei o pedal! Acelerei, e suado cheguei ao local para ver a olhos nus. Não vi mais nada, nem formigas. Só um formigueiro. O Sol estava muito forte e imaginei que pudesse ser efeito disto. Estou pirando!

Afastei, e continuei minha pedalada. Uma sensação estranha, de dúvida, confusão, sentimento de que estava enlouquecendo pensei: - Que viagem! Claro que não! Imagine uma coisa destas?!?! Não entrei em nenhuma colônia de formigas, não conversei com formigas, e muito menos vi formigas falando comigo por frases! Olhei novamente para trás para confirmar, voltei lá e de fato não tinha nada. Tranquilizei-me. Claro que não havia nada!

- Continuei minha pedalada e logo senti uma pontada no braço, naquele local que recebi o veneno do mago que me diminuiu. Quando olhei para o local, minha pele estava brilhando, como se houvesse uma luz em mim. Um brilho azul, forte, fortalecendo meus braços. Olhei de novo pra trás, com meu binóculo e só vi duas formigas em cima do formigueiro, parecia ser a Sensitiva e o Mago fazendo um movimento que interpretei como sendo um aceno.

Nesta hora senti uma indescritível emoção. Não precisava ver mais nada. Já sabia o que fazer dali por diante! Estava livre para ser diferente e receber o afeto do mundo!

 

Fabrício Maurício de Oliveira, Psicólogo de 36 anos especialista em Gestão de Pessoas, Personal e Professional Coach. Enveredando ser escritor. fabricioliver@hotmail.com / http://batalhainterior.blogspot.com.br/

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