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Momentos de uma Vida: Um novo velho amigo

Momentos de uma Vida: Um novo velho amigo

 

Divino Alves Sousa

Dia desses fui visitar a cidade de Edealina e na volta, ao passar sobre a ponte do Rio dos Bois, tomado pela curiosidade inerente a um aprendiz de pescador, resolvi ver de perto as águas barrentas do rio em que tantas vezes naveguei. Parei o carro na cabeceira da ponte e segui por uma pequena trilha que desce do lado do aterro. Agradável surpresa. Encontrei 2 casais acampados embaixo da ponte. Não em estado de miséria, como constantemente vemos em jornais e televisões, mas com grande abundância de víveres e outros recursos da sociedade moderna. Os casais almoçavam, na verdade, um casal e outra senhora almoçavam lauta refeição a base de arroz, peixe frito, bananas e refrigerante de guaraná, instalados confortavelmente em torno de uma mesa. Uma cena bucólica. O outro componente do quarteto estava um pouco mais afastado do grupo, à margem do rio e esperava que uma das mulheres servisse seu prato. Ao me ver, convidou-me para almoçar, o que dispensei, já que havia almoçado na cidade, mas aceitei o convite para sentar-me junto dele na margem do rio e iniciamos uma agradável conversa. Falamos de tudo um pouco e aos poucos descobrimo-nos velhos amigos. E meu novo velho amigo, agora servido de um generoso prato de arroz, peixe frito, bananas e um copo de guaraná começou a me contar um pouco de sua história recente apontando para um par de muletas jogadas a um canto. Contou-me que há pouco tempo foi surpreendido por uma enfermidade que o deixou 62 dias internado em uma UTI na capital. Narrou, com seu jeito simples, os dias difíceis que passou internado. Com seu linguajar típico de homem do interior disse que em meio a devaneios provocados pela doença, ouvia os médicos dizerem: “esse aí não passa de hoje” e pensava: “será que não voltarei a Edealina? Não verei novamente meus amigos? Não irei mais na minha chacrinha no Abacaxi? E pior, não mais acamparei embaixo da ponte do Rio dos Bois?”. Enquanto ele contava sua história, dona Maurícia, companheira de tantos anos, professora aposentada, uma encantadora mulher, exemplo de esposa e mãe, alternava sorrisos e lágrimas de emoção. Perguntei-lhe se não tinha receio de ficar ali, já que ainda estava convalescendo, repondeu-me: “se morrer aqui, pescando, morrerei feliz”. E dirigindo-se a dona Maurícia disse-lhe: “se morrer aqui, dona Maurícia(ele a trata assim), serei o defunto mais feliz do mundo”. E eu, olhando para aquele acampamento, tive a certeza de que para quem gosta, aquilo é comparável a uma suíte de um hotel 5 estrelas. Anor, este é o nome da figuraça que estava ali, um homem simples, esportista, ambientalista, ex-vereador, motorista, pescador, cheio de graça, mas acima de tudo, um apaixonado amante da natureza que recebeu de DEUS a oportunidade de recomeçar e que eu tive o privilégio que se tornasse o meu mais novo velho amigo.

 

Divino Alves Sousa, professor.

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