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COBRADOR DE ÔNIBUS

No meu tempo, era costume se dizer que as mulheres – a maioria delas – tinham uma queda pelos violeiros, jogadores de futebol, motorista de caminhão e cobradores de ônibus. E não era só papo de esquina, as mais bonitas principalmente só tinham olhos para eles. Se alguém executava uma dessas atividades, com certeza era homem de muitas conquistas.

Eu me lembrei dessa prosa porque, semana passada, depois de um bom tempo, tive que fazer uma viagem de ônibus. Na hora marcada, lá estava eu na rodoviária quando o ônibus apareceu, e o motorista logo se posicionou ao lado da porta a fim de conferir os bilhetes. Entrei, acomodei minha bagagem e sentei próximo a uma das janelas, de onde continuei a acompanhar o trabalho do condutor do veículo. Percebi que ele próprio guardou algumas malas maiores no compartimento próprio do “busão”; depois disso entrou e checou a quantidade de passageiros, contando baixinho, mexendo apenas os lábios. Em seguida deu a partida rumo ao nosso destino.

Mas, e o cobrador? Ele não apareceu em nenhum momento. Não recebeu as pessoas, não guardou bagagens e não tirou do bolso da camisa o bloquinho de passagens, atendendo aqueles que chegavam de última hora ou que tomavam o ônibus em outra estação. Não pude ver a sua classe, sua facilidade de caminhar pelo corredor com o veículo em movimento. Em momento algum ouvi sua voz desejando bom dia e esclarecendo costumeiras dúvidas sobre as inevitáveis paradas e a hora da chegada. Não, não havia cobrador, o motorista executava todas as tarefas. Nem existiam mais bloquinhos de passagens. A minha, por exemplo, foi tirada através da internet. Durante a viagem, o fato surgiu várias vezes em meu pensamento e, quando chegamos, fiz questão de observar aquela ausência também nos outros ônibus. Era verdade, eu ainda não havia me tocado, mas cobrador de ônibus é uma profissão que não existe mais ou, certamente, está em extinção.

É inegável a evolução do homem em todos os sentidos, principalmente depois do advento da informática. Tudo muda muito depressa e vários setores sofreram transformações. Inúmeros conceitos foram repensados e imutáveis verdades são agora obsoletas. Nada foi tão forte para se julgar eterno, inclusive a profissão de cobrador de ônibus. E se alguém me perguntar se o caso me incomodou, eu diria que não. É claro que é mais um local de trabalho que se perde, é menos um espaço que se tem para ganhar o pão de cada dia, no entanto confesso que até me sinto feliz em não encontrar esse profissional vagando por aí. Sabe, não foi uma ou duas garotas que perdi para um cobrador de ônibus, esse “preenchedor” de bloquinhos me roubou várias delas. Parece que elas se encantavam com o seu molejo, o seu infalível equilíbrio, o seu trejeito de se recostar de leve nas poltronas quando o ônibus se contorcia na estrada. Sei lá, só sei que fui passado para trás várias vezes, e não se esquece quando apanha.

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