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NOS BRAÇOS DE MORFEU

A gente trabalha o dia todo, corre pra lá e pra cá cumprindo as obrigações, sempre em busca de um bom rendimento. O tempo vai e o sol se põe. Para nós que passamos oito horas ou mais no batente, uma noite de sono é a melhor recompensa que se pode ter. Penso assim, só uma coisa me preocupa quando coloco a cabeça no travesseiro: será que vou acordar no outro dia cedo? Ou quando abrir os olhos estarei em outro lugar, outra dimensão? Ou simplesmente, como nos filmes, minha mente será apagada e eu nunca mais me lembrarei de mim?

Alguém pode dizer que é uma preocupação boba, mas será mesmo? Eu posso acordar ao lado de anjos e arcanjos, todos vestidos de branco, sentados nas nuvens, tocando em delicados instrumentos as mais lindas melodias que se possa imaginar. Seria imensa a felicidade e eu teria a certeza de que me comportei bem aqui na Terra, fui generoso, ajudei a quem precisou, consegui me controlar diante dos prazeres da carne e, como prêmio, recebi a vida eterna ao lado da família e dos amigos que já passaram para esse plano.

Isso é possível. Mas posso despertar também em um hospital de regeneração, onde passarei por cuidados especiais, cicatrizando as feridas do corpo e da alma, até ser transportado para outro setor com a missão de auxiliar irmãos desencarnados que precisam de mim. Ficarei ali sem tempo determinado até ganhar novamente a oportunidade de voltar à Terra ou a outro planeta, para pagar os pecados cometidos nesta e em outras vidas, e prosseguir minha tarefa de aperfeiçoamento espiritual. Essa é outra possibilidade que devo levar em conta.

Mas imagine se eu acordar, sentindo um imenso calor e encontrar do meu lado um cara chifrudo, de tridente nas mãos, soltando fogo pelas narinas, sorrindo de forma macabra em minha direção. A um gesto dele, eu me viro e visualizo enormes tachos com água fervente e borbulhante de um lado e, de outro, tachos repletos de merda escorrendo pelas bordas. Na trilha sonora daquela risada que aos poucos vai tomando minha alma, tenho que escolher o melhor lugar para ficar. Na verdade, o menos ruim. Fugir é impossível, as pernas estão bambas de medo. Além disso, vejo chegando e fazendo um semicírculo, todos os meus desafetos aqui da Terra, esperando apenas terminar minha audiência com o capeta para acertarem as contas comigo.

Por isso é que tenho receio de fechar os olhos sempre que deito. Muitas coisas desconhecidas podem acontecer, já que verdadeiramente nada sabemos de nosso destino. Entretanto, o cansaço do dia-a-dia logo vence e, depois de uma rápida oração, me entrego aos braços de Morfeu. Meu único pedido é que a próxima manhã seja natural, ou pelo menos que o sobrenatural seja bonzinho comigo. Boa noite!

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