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Miguel Patrício -

UMA BRUXA PORTUGUESA, COM CERTEZA!

Esta história veio lá de Portugal. Um amigo, natural daqueles lados, me fez a narrativa com todos os detalhes, revelando que sua memória apresenta certa dificuldade para lembrar acontecimentos recentes, até mesmo do dia anterior, mas é excelente para guardar fatos antigos. Ele era ainda criança e, como todas elas, não perdia a oportunidade de se sentar no fim da tarde sob a varanda da velha casa para ouvir os relatos, nem sempre verdadeiros, das pessoas mais idosas sobre fantasmas, lobisomens, vampiros e demais seres do outro mundo. As bruxas particularmente lhe causavam maior temor. Com seus olhos esbugalhados, sorriso largo, nariz comprido, unhas disformes e aquele tétrico chapéu retorcido na cabeça, lhe arrancavam constantes arrepios.

O caso teria acontecido com seu próprio pai no tempo de carreiro. O velho, como de costume, ia caminhando à frente de sua junta de bois, transportando a carga do dia até a fazenda. Morosamente, ele e os animais seguiam, ouvindo o barulho do carro que, naquele momento, iniciava a subida contornando a serra. Tudo bem até aí, não fosse o sol demonstrar o seu cansaço e querer se aninhar mansamente nos braços do infinito... Todos sabem que a chegada da noite traz com ela os maus espíritos. São horas mortas, propícias para o ataque de alguns desses seres fantasmagóricos ou, quem sabe, até mais de um deles. O homem então segurou com mais firmeza sua vara de ferrão usada no açoite dos animais e passou a observar com atenção a mata que passava lentamente na beira da estrada que, naquele momento, parecia mais estreita. E o inevitável aconteceu!

De repente, a cantiga do carro mudou o tom, o chiar das grandes rodas no cascalho do caminho se intensificou e seus animais se retesaram para puxar o veículo. O carreiro se voltou para entender aquela mudança. Apesar da subida, a carga era leve e não justificava o estranho acontecimento. A fraca luz do entardecer nada lhe revelou de anormal, no entanto. Ele resolveu, assim, contornar o carro. Ao passar pela junta de bois, um arrepio tomou conta de seu corpo revelando que, naquele momento, não estava mais sozinho. Quando chegou à parte de trás, uma risada fantasmagórica ecoou, penetrando em todos os cantos escuros da serra. Uma bruxa estava sentada junto à carga, aumentando inúmeras vezes o peso com suas maldades e maldições. Aquela tétrica visão fez o carreiro dar um passo para trás e se armar, colocando em riste a vara de ferrão. Não houve luta. Rapidamente como surgiu, aquela alma penada desapareceu, levando junto sua vassoura, suas vestes negras, sua risada. O carro voltou a cantar mansamente, e os bois se aliviaram do peso. Só restou ao homem se apressar, o máximo que pôde, para alcançar o terreiro da fazenda, levando consigo o medo e mais um caso para contar.

Era uma bruxa portuguesa, com certeza! E essa história, acontecida há mais de meio século, se transporta da memória para estas breves linhas. Agora viverá para sempre.

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