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Miguel Patrício -

SE ADÃO FOSSE VIVO...

 

            Sabe-se que o costume de exibir pensamentos nos parachoques dos caminhões teve origem na Argentina e se espalhou pelo Brasil na década de 50. Daí em diante, milhares de frases criativas foram compostas e recitadas pelos caminhoneiros nas rodovias de nosso País. Algumas românticas: “Nas curvas do teu corpo, capotei meu coração”. Outras engraçadas: “Dinheiro não traz felicidade, mas ajuda a sofrer em Paris”. Várias de protesto: “É pelos buracos nas ruas que se conhece o prefeito e os vereadores” ou “ Vote nas putas porque nos filhos não deu certo”. O tema principal sempre foi o sexo feminino: “Marido de mulher feia tem raiva de feriado” ou “Mulher é como música, só faz sucesso quando nova”. O pobre é frequentemente lembrado: “Pobre é igual pneu, quanto mais trabalha mais liso fica” ou “Pobre quando põe a mão no bolso só tira os cinco dedos”. Certamente é a sogra a personagem preferida dos poetas do asfalto: “Prefiro picada de cobra do que beijo de sogra” ou “Sogra é igual mandioca, as boas estão enterradas bem fundo”.

            É enorme o acervo dessas frases, e nele existe uma que procuro há bastante tempo e não encontro. Só tenho a metade dela. Aconteceu assim: eu estava viajando ao lado de um amigo, era ele quem dirigia e, ao ultrapassarmos um caminhão, só tive tempo de ler o início “Se Adão fosse vivo...”. Fiquei com vergonha de pedir ao condutor para voltar e ver o restante da frase e assim seguimos em frente. Foi um erro, pois nunca me esqueci do caso e não vi mais o enunciado por aí nos parachoques dos caminhões. O mais importante dessa viagem, o que ficou guardado em meu pensamento foi a frase incompleta, a danada da metade que não pude visualizar e assim saber o que dizia. A curiosidade me atormenta até hoje depois de tantos anos.

            “Se Adão fosse vivo...”. Fico imaginando o que será que vem depois. Não se trata daquela frase já famosa: “Feliz foi Adão que não teve sogra nem caminhão”. Pode até ser parecida com ela, mas como seria? Recorro constantemente ao meu parco talento poético, tento completar por minha conta, mas não consigo. Sei que a misteriosa segunda parte tem o mesmo tamanho da primeira, pois o seu vulto ficou em minha mente, mas a velocidade do automóvel não me deixou decifrar a mensagem.

            Já procurei na internet, mas foi em vão. O Google não conseguiu me responder ainda. Sempre pergunto a todo caminhoneiro que encontro, e nenhum deles ouviu falar. Deve ter sido inspiração de algum desconhecido compositor da estrada que nunca pensou em divulgar sua obra, e nenhum companheiro teve a ideia de copiar a ideia. Depois de tanto tempo, talvez nem exista mais; o caminhão pode ter se estragado ou o dono parou de trabalhar, se aposentou, sei lá. O que sei é que não me esqueço daquele pedaço de verso pintado na carroceria do referido veículo. “Se Adão fosse vivo...”. O que será que vem depois, meu Deus?

            Só me resta seguir pela estrada da vida de olho nos parachoques dos caminhões. Quem sabe um dia, quando menos eu esperar, surja em minha frente um bonito caminhão estampando em seu parachoque o complemento que tanto procuro. Vale aí ressaltar duas outras frases que não me deixam desistir: “Quem procura sempre alcança” e “A esperança é a última que morre”. Espero não morrer primeiro.

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