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Miguel Patrício -

O olhar do escritor

Escritor se vale muito da imaginação, mas é um observador por natureza. Ele está sempre atento ao que acontece a si mesmo, ao seu redor e ao redor dos arredores. Pode até ser declarado curioso, mas não exibe uma curiosidade banal. Ele consegue enxergar através da névoa que turva os olhares comuns. Seu olhar perpassa as folhas da mata em busca da paz da clareira; pula no lago para ver, debaixo das águas, o mergulho dos pingos da chuva; aponta desenhos nas nuvens que elas próprias não ousam fazer. O romance, o conto, a crônica, o poema são frutos da mente, mas principalmente dos olhos atentos do escritor.

E eis que dois olhos assim avistam uma carroça, abarrotada de cacarias, na irregularidade da rua. Ela balança, dança entre as pedras, se levanta, se segura e segue o trôpego destino. Na frente o cavalo mordendo o freio; no alto o condutor balançando o relho. Tudo normal até então; nada de especial, a não ser a insistente teimosia da existência desse veículo nos dias de hoje. A modernidade, entretanto, não chega ao mesmo tempo para todos, isso explica. Quando a rua se aprumou mais adiante e o animal se estirou em busca de maior apoio entre as pedras que rolavam, o condutor se “tocou” e pulou ao chão. Esperou pacientemente a passagem da carroça e a seguiu, a pé, quase encostado em sua traseira. Tinha plena confiança no cavalo, tanto que até enrolava distraidamente um cigarro de palha.

E o olhar do escritor, o que viu? Viu tudo isso e o respeito do homem pelo animal. Naquele momento, quem puxava a carroça era um companheiro de trabalho, o amigo mais presente durante todo o dia. O caminho íngreme tornava a carga mais pesada e ele devia contribuir para amenizar o sofrimento daquele que se levantou de madrugada, sem reclamar, e caminhou ao seu lado até aquele momento dando o melhor de si. Era preciso ser justo, ser leal. O olhar do escritor viu o olhar de lado do animal, num gesto de agradecimento, quando a estrada se endireitou e o homem voltou a subir na carroça. Amizade assim o escritor não conseguiu ver no restante do caminho até sua casa.

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