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Miguel Patrício -

O NATAL E A LEI DOS VINTE POR CENTO

 

               Quando o Natal se aproxima, é possível sentir no ar e no olhar das pessoas que, mais uma vez, elas cumprem à risca a Lei dos Vinte por Cento. A referida lei foi instituída há 2017 anos e vem se renovando a cada comemoração do nascimento de Jesus. Aliás, essa porcentagem é flexível, às vezes mais, às vezes menos, mas com o passar do tempo se acostumou, se convencionou e se intitulou em vinte por cento. Para começar, nessa época do ano, todos sonham mais, todos planejam mais, em média vinte por cento. Aquela viagem sempre adiada passa a fazer parte da conversa em família na hora do almoço, aquele trabalho almejado começa a não parecer mais tão distante, o rosto daquela pessoa amada e considerada um caso impossível surge com mais frequência à mente quando se repousa a cabeça no travesseiro. E sonhos disso, e sonhos daquilo emergem... É lei, a Lei dos Vinte por Cento.

               Sempre que chega o Natal, um fogo se acende no interior das pessoas e elas ficam mais... agitadas. A gente olha pelas ruas e vê quase todas correndo como se fugissem de alguma coisa ou se lançassem em busca de algo que não sabem o que é. E essa pressa de sair e de chegar, de serem atendidas primeiro, atropela os bons costumes e a boa educação. Não há tempo para o apreciado “bom-dia” ou para o nobre “por favor”, pois estão subjugadas pela Lei dos Vinte por Cento. O trânsito, então, se transforma em um sério problema. Imagine vinte por cento de pressa espalhados nestas esquinas nem sempre bem sinalizadas! Aquela cartilha com as regrinhas escritas que a gente estuda para adquirir a carteira de motorista é esquecida. Os automóveis se embolam nos cruzamentos e ninguém vende barato a sua vez. Passa primeiro o mais forte, o mais corajoso. É como se um pedaço daquela tensão, daquele desassossego da cidade grande tivesse se desgarrado por um momento de lá e caído exatamente aqui em nossas ruas. Assim, os acidentes infelizmente acontecem, com mais ou menos vinte por cento de aumento.

               Devido ao décimo terceiro salário, há mais dinheiro na praça, mais gente nas filas dos bancos e, assim, aumentam os ladrões. Eles também trabalham mais, cerca de vinte por cento. Os safados refazem projetos de roubos às residências vazias, de assaltos aos velhinhos aposentados nas saídas de bancos, de costumeiros trotes pelos celulares e de vários outros golpes conhecidos. É a violência que aumenta, obedecendo fielmente à Lei dos Vinte por Cento. O tilintar dos sinos do Natal, em contrapartida, abranda o coração das pessoas, que se tornam mais benevolentes, menos apegadas aos bens materiais, pelo menos uns vinte por cento. A caridade nasce junto ao sol de cada dia e há sempre alguém que olha a rua diferente de como sempre olhou o ano inteiro. Se antes fugia de um pedinte, agora o procura para se realizar, para doar um pouco do que tem, do que recebeu dos Céus nesse ano que se finda, para enfim cumprir a Lei dos Vinte por Cento.

               E a saudade? No Natal ela é maior, mais cortante. Vinte por cento. Todos querem ver os amigos mais chegados, os parentes mais distantes; muitos viajam dias seguidos para ganhar um abraço. Há vinte por cento a mais de festas, de bebidas, de músicas, de danças, alegrias e famílias reunidas. No Natal há vinte por cento a mais de felicidade. É lei. A Lei dos Vinte por Cento. Um feliz Natal a todos vocês!

                Feliz Natal e Próspero Ano Novo!

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