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Miguel Patrício -

MATULA

Faz anos, um grande amigo me contou uma história tão verdadeira e de tanta beleza em sua construção que às vezes eu me sinto integrante dela. Vou reproduzi-la aqui, no entanto daqui pra frente ele quem fala, guiado pelas minhas palavras.

- “Certa vez um companheiro de pesca me convidou para, em sua companhia, conduzir uma canoa de um ponto a outro do rio que banha nossa região. Nesta época, décadas atrás, ainda havia água, e muitas árvores ao redor das margens. E, décadas atrás, o motor de popa era raro e nos armamos de dois remos para realizar a façanha.

A distância era longa; mesmo descendo o rio, a tarefa duraria o dia inteiro. Alguns perigos nos rodeavam. Vinham tanto pela densa mata que seguia os barrancos, quanto pelo leito caudaloso que havíamos de percorrer: onças, sucuris e corredeiras. Meu parceiro já contava certa idade, e sua experiência foi decisiva em todo o trajeto. No banco da proa eu me encarregava da força, fazendo o barco deslizar sobre a água, e ele, na popa, conduzia a nau no rumo certo, nos distanciando das árvores, nos defendendo das pedras que surgiam abruptamente no caminho.

Ainda jovem, eu me esquecia do cansaço e me divertia com a aventura. Era a primeira vez que passava tanto tempo no interior de uma canoa e me deleitava com as ondas, com os peixes que saltavam, com as aves ribeirinhas que alçavam voo quando nos aproximávamos. Tinha apenas uma preocupação: o momento da parada, não só para o descanso, mas principalmente para um lanche que já demorava, assim dizia meu estômago. Como meu companheiro estava no comando e não parecia com fome, era natural que a boia demorasse um pouco mais.

Quando o sol se pôs a pino e um remanso nos mostrou algumas pedras banhando-se no leito do rio, para minha alegria a canoa mudou o percurso, e diminuí a carreira. Uma paineira deitava um galho frondoso sobre as águas e nos emprestou a sombra. Encostamos, enfim. O homem tirou o chapéu, esboçou um sorriso e apartou da tralha uma capanga. Dentro puxou dois embrulhos; um deles exibia um eito de linguiça frita, o outro estava repleto de bananas-maçã tão maduras que as cascas já apresentavam aquelas pintinhas pretas. Era a nossa matula. E eu, confesso, nunca comi algo tão delicioso. Os cheiros dos dois alimentos se combinavam, e os sabores se completavam revezando entre o doce e o salgado. Não me lembro se sobrou, mas me recordo que havia o suficiente para matar a nossa fome. Minutos após, a embarcação seguiu e alcançamos o destino. Tudo foi maravilhoso, da saída à chegada, no entanto o que ficou por mais tempo e com mais intensidade em minha memória foi a matula que comemos, a maior surpresa que fora reservada para mim nas curvas daquele rio.”

Obrigado, amigo, pela história. Você não vive mais entre nós, mas pôde contá-la a todos com todos os detalhes das vezes que me descreveu. Descanse em paz, como sempre viveu por aqui.

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