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Miguel Patrício -

BEIJO NO SEU CORAÇÃO

Hoje tive a certeza de que realmente estou ficando velho. E não me refiro apenas à contagem dos anos que já alcança mesmo uma soma razoável, mas à postura diante da vida, às reações frente aos acontecimentos, enfim às atitudes dignas de uma bela idade. Naturalmente, com o passar das primaveras, surgem mudanças nos hábitos, no humor e até no trato com as pessoas. A gente se torna mais reservado, não suporta barulhos, escolhe com mais critério as companhias e não perdoa exageros de qualquer espécie. Isso tudo está acontecendo comigo.

Tem mais. Já não gosto muito de sair de casa e nem de receber visitas, reprovo a maioria dos arroubos juvenis e até mesmo uma alegria excessiva me incomoda. E vejam só com o que me impliquei no momento: não aguento ouvir a frase “Beijo no seu coração”. Isso me irrita. O pior é que ela é repetida incansavelmente por aí. Virou praga nas ruas, viralizou na internet, nas ligações telefônicas, nos textos escritos. É o final preferido de quase todas as mensagens, o “arremate perfeito” que embeleza a comunicação. Vira e mexe, alguém abre um sorriso como se estivesse dizendo algo maravilhoso e exclama: Beijo no seu coração!

Como é que pode alguém beijar o coração de outro? É uma idiotice dizer isso. Sei que se trata de uma metáfora, uma demonstração de carinho, um beijo virtual no coração – local onde supostamente se guardam as emoções, os sentimentos. Mas não me convence; a expressão não soa bem, fere os meus ouvidos. É bem melhor dizer até logo, tchau, obrigado ou somente beijo, beijo na mão, no rosto, na boca, onde quiser, mas nunca no coração. Alguém deve ter falado essa besteira na TV e a turma “Maria vai com as outras” tratou de espalhar. É sempre desse jeito, o povo repete os modismos sem pensar, sem analisar o que está fazendo, o que está dizendo. Com certeza foi assim que as pessoas passaram a beijar o coração das outras. Não é mesmo uma chatice? Ou será que nesse caso o chato sou eu?

Antigamente quando se escrevia uma carta, enviavam-se lembranças ao endereçado e à sua família. Veja que coisa mais pura e mais bonita! Se fosse mandado um abraço através de alguém, este transmitia o recado e abraçava a pessoa, como sugeriu o remetente. O abraço acontecia de verdade. O mesmo se fazia com um beijo respeitoso, na face por exemplo. Agora, como entregar um beijo no coração? Só se matasse a pessoa e arrancasse-lhe o referido órgão do peito.

Bem, já falei o que queria. Não vou me despedir dizendo essa tolice de beijo no seu coração. Desejo-lhe felicidade e pronto!

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