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Miguel Patrício -

A morada de satanás

Devido a esta minha coluna no jornal e quem sabe ao meu bom relacionamento com as palavras, algumas pessoas me abordam nas ruas e narram histórias sugerindo que eu as transcreva para o papel e sejam editadas. Isso é bom, pois assim não me faltam argumentos. Várias crônicas, inúmeros contos já surgiram da referida colaboração. Um desses relatos é apresentado agora. Trata-se de um caso de assombrações, mas não é simplesmente uma fantasia daquelas contadas à beira de uma fogueira, no terreiro de uma fazenda, para distrair a criançada. É coisa séria. Vamos lá:

Bem perto daqui há um local sombrio, rodeado por denso matagal, conhecido como a Morada de Satanás: um casarão abandonado de paredes altas e castigadas pelo tempo que mantém suas portas abertas feito enormes gargantas escuras de uma criatura qualquer vomitada das profundezas do inferno. A certa distância pode-se ouvir vozes, sussurros e gemidos. Repentinos gritos de dor rasgam o ar, penetram e percorrem o ribeiro próximo até misturar-se mais abaixo com o choro de uma pequena cascata. Quem teve a coragem de se aproximar conta que esses horríveis lamentos fazem arrepiar o corpo inteiro. À noite, luzes passeiam pelas imediações, e vultos cobertos por uma veste branca podem ser vistos perambulando nas clareiras. Conta-se que até os animais não se abeiram do lugar. Se são conduzidos para lá, refugam e disparam enlouquecidos pelo caminho de volta.

Esses assombros têm um motivo. Nos meados do século passado, viveu ali uma família liderada por uma mulher muito cruel que mantinha como escravos vários trabalhadores braçais, inocentes que passavam buscando serviço e eram feitos prisioneiros. Ninguém descumpria suas ordens. Por qualquer descuido, os infelizes eram açoitados pelo chicote e marcados nas costas por um ferro em brasa. Se um deles tentasse uma fuga, era pego, amarrado numa cruz e deixado ao sol e ao relento sem água e comida por vários dias seguidos. Aqueles que não suportavam o castigo e morriam eram levados para dentro e sepultados no assoalho do próprio casarão.

Por medo ou negligência, as autoridades nada faziam e essa barbárie perdurou por vários anos até que uma peste, uma praga, uma maldição de alguém deu fim ao sofrimento. Os membros da família foram morrendo aos poucos até que a própria mulher prostrou-se em um leito de tormentos e aflições. Quando sentiu que o enviado das trevas chegava para levar sua alma, arrastou-se e se juntou aos outros, parentes e escravos, sepultados debaixo do assoalho da velha construção. Não é de admirar que aquele pedaço de mundo esteja ainda, depois de tantos anos, impregnado pela desgraça e habitado pelos espectros do mundo obscuro das sombras.

Essa é a história da Morada de Satanás. Confesso que perdi o sono inúmeras noites pensando nela. Demorei vários dias ajuntando coragem para escrevê-la. Credo em cruz!

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